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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

RICARDO CHAVES - Notícias




CARNAVAL OU FESTIVAL? EIS A QUESTÃO!


Pela primeira vez desde 1982, quando ainda adolescente aceitei o convite de Durval Lélys para ser o cantor da banda que tocou no bloco Pinel, não irei participar do carnaval em Salvador. É uma sensação estranha. O que mais me incomoda, não é estar momentaneamente fora da festa, mas sim o fato da festa estar fora de mim. Nos últimos dois anos, escrevi textos com as minhas reflexões a respeito do carnaval de Salvador. O primeiro chamei de “Silêncio Conveniente”, e no ano passado, escrevi “O Foco”. Em ambos, a intenção foi abordar pontos que, em minha opinião, podem estar conduzindo a festa para um destino perigoso.

Tenho a triste convicção de que a festa feita hoje está cada dia mais distante da que eu ajudei a construir. Pode ser uma opinião isolada, mas sinto falta de alma e de identidade no carnaval que a minha cidade está produzindo. Parece que o evento que apresentou ao mundo uma musicalidade própria, original, popular e única, se transformou em uma extensão de outro grande evento musical baiano que é o festival de verão, onde a máxima do “movido pela mistura” é o que determina a sua dinâmica. No festival funciona muito bem. E no carnaval? Eu tenho dúvida.

Apenas coloco o questionamento do que a cidade se propõe a oferecer no seu carnaval. Se quer uma festa popular, original, com uma cara própria ou um grande festival musical que acontece nas suas ruas. Pra mim esse é um ponto que deve ser deixado claro para se definir o que irá ser feito mais na frente.

Eu sou suspeito, pois faço parte de uma geração que quando subia no trio para cantar tinha para escolher músicas como “Chame gente”, “Taba”, “Baianidade nagô”, “Eva”, “Prefixo de verão”, “É d’Oxum”, “Protesto Olodum”, “Com amor” e tantas outras, produzidas para a festa, que se tornaram clássicas. No atual “festival”, o cardápio é bem diferente. Só para exemplificar, ele está cheio de camaro, dodge ram, land rover, fiorino, dobl. Até parece catálogo de montadora de automóvel. Fica a impressão de que tudo é feito para passar na velocidade de uma ferrari.

Sou contra qualquer tipo de protecionismo musical, até porque no som que brotou dos trios, não só podemos, como devemos misturar tudo. Essa característica ajudou a fazer a nossa festa ganhar o mundo e transformou os seus músicos em artistas conhecidos. A mistura sempre foi usada por nós, para produzir a música que depois veio a ser chamada de axé music.

Nas entrevistas dadas por alguns artistas e celebridades que têm participado de blocos no “Carnaval de Salvador”, o que mais se escuta são frases do tipo: – “como é bom pegar um pouco da energia da Bahia! é muito bom estar aqui!”. Antes, produzíamos música. Hoje, é como se tivéssemos virado uma espécie de filial de Itaipu. É tanta gente buscando energia, que pode acabar causando um apagão musical.

Se você leu o texto até aqui, pode estar pensando: -“esse cara está reclamando porque ficou de fora”. Alguns certamente nem sentirão a minha ausência. Mas, o que escrevo independe de eu cantar ou não em Salvador no próximo carnaval. Participar da festa, atualmente passou a ser uma decisão puramente financeira. Nos últimos anos, a maneira como os desfiles estão sendo definidos nos circuitos, a meu ver, é absurda! Dos temas tratados por mim nos outros dois textos, talvez esse seja o mais delicado. Sei que abordá-lo poderá me causar vários transtornos, mas acho que já passou da hora de se mexer nessa ferida.

Há muitos anos, os desfiles dos blocos ocorriam de forma desordenada. Foi necessário que se criassem mecanismos para organizar as coisas. Com a participação de blocos, artistas, imprensa e empresários, sob a coordenação da Prefeitura, surgiram a fila e os horários definidos para ordenar os desfiles. Na época, concordei que, mesmo sem ser necessariamente o mais justo, o critério adotado de se formar a fila levando em conta a antiguidade do bloco, era o que melhor cumpria o papel de tentar organizar a festa.

Assim foi feito e o Carnaval de Salvador foi ganhando cada vez mais espaço e conquistando mais admiradores. Com o passar dos anos, assim como na política atual existem partidos de aluguel, surgiu então a figura dos blocos hospedeiros. A lógica é simples: quem conquistou a vaga no passado e deixou de desfilar, continuou com ela passando a alugá-la. Quem paga mais, ganha o “direito” de ocupar, quase sempre provisoriamente, o espaço. Essa prática desaguou na aberração de se ver na programação oficial dos desfiles, blocos com denominações inusitadas do tipo “bloco x/y”. Traduzindo para os leigos:

x= nome do bloco “dono” da vaga

y= nome do bloco que pagou a x e ganhou o “direito” de desfilar no seu lugar

Para não falar dos outros, vou dar como exemplo O Bicho – bloco que comandei nos últimos quatro anos. Quem olhar a programação oficial dos seus três primeiros anos vai perceber que ele estava inscrito com o nome de bloco x / Bicho. No ano passado, o dono do então bloco x, arrumou outro “cliente”. Como eu tinha compromisso de colocar o bloco na rua, achei no mercado negro uma “oferta” que levou o Bicho a desfilar em um horário mais tarde e somente por dois dias. Meu bloco foi então inscrito com o nome de outro bloco x / Bicho. Todas as vagas são de um “dono” e uma parte dos blocos originais já não desfila mais. Da maneira que as coisas se encontram, tendo a disposição de pagar, se consegue colocar um bloco nas ruas de Salvador independente do que ele possa ter de ligação com o que se costumava chamar carnaval. Até que ponto vale a pena disputar financeiramente um espaço para desfilar? Penso que isso tem que mudar.

Essas são opiniões particulares de um cidadão que, mesmo sem às vezes concordar com os rumos escolhidos pelos envolvidos na folia, sempre se orgulhou da festa que sua cidade tem proporcionado para quem queira participar. São reflexões de um soteropolitano que é também um artista que há mais de três décadas tem dedicado a sua arte e a sua voz, para tentar fazer uma festa cada vez melhor. Tenho conversado muito com outros artistas, com jornalistas, empresários e foliões. Todos concordam que, do jeito que está não dá prá continuar. Algo tem que ser feito e tenho certeza que será! A chegada de um novo prefeito é um bom momento para se debater ideias de possíveis futuras mudanças.

Neste carnaval, estarei mais uma vez todos os dias, em cima do trio. Vou tocar em outras cidades do país. Em todos eles, vou estar me divertindo, fazendo o que gosto e torcendo muito para que o carnaval da minha cidade retome o rumo e volte a ser uma festa que mantenha a diversidade, mas sem nunca deixar de ser baiana. Rever a “feira livre” da fila não resolve todos os problemas, mas pode ser um bom começo para coibir aventuras de ocasião no carnaval.

Independente de gostar ou não do meu trabalho, peço que reflita se a forma como a festa tem acontecido vem te agradando. Os números não costumam mentir. Ultimamente eles revelam que, ano após ano, cada vez mais turistas e, principalmente, os soteropolitanos, ao sentirem a proximidade do “festival de rua”, sentem vontade de cantar um trecho do refrão de uma das inúmeras músicas dos meus amigos Beto Garrido e Alexandre Peixe, que foi gravada pelo Chiclete com Banana, a banda que há mais tempo representa o verdadeiro Carnaval de Salvador, e diz:

A fila andou, eu te falei,

Não deu valor, como eu te amei,

Agora chora, você já me perdeu,

Tô fora!

Independente das opiniões e do local onde estejamos no carnaval, boa festa para todos nós. Que venha 2014!


Ricardo Chaves




Fonte: http://www.ricardochaves.com.br/?cat=3


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